Serão os humanos extintos até 2026? – Sam Carana

Feedbacks climáticos e extinção humana a curto prazo

No Ártico, vastas quantidades de carbono estão armazenadas em solos que estão ainda amplamente congelados. À medida que as temperaturas continuam a subir e os solos descongelam, muito deste carbono será convertido por micróbios em dióxido de carbono ou metano, acrescentando mais gases de efeito estufa à atmosfera.

Além disso, grandes quantidades de metano estão armazenadas em sedimentos debaixo do leito do Oceano Ártico, sob a forma de hidratos de metano e gás livre. Conforme as temperaturas sobem, estes sedimentos podem ser desestabilizados, provocando erupções de enormes quantidades de metano a partir do fundo do mar. Devido ao carácter abrupto destas libertações e do facto de muitos mares do Oceano Ártico serem rasos, grande parte do metano irá, em seguida, entrar na atmosfera sem ser decomposto pela água.

O que torna a situação tão perigosa é que enormes erupções oriundas do leito do Oceano Ártico podem acontecer a qualquer momento. Podemos apenas considerar-nos sortudos por isso ainda não ter acontecido. À medida que as temperaturas continuam a subir, o risco de isto acontecer continua a aumentar.

Ártico aquece mais rápido através de mecanismos de realimentação ou feedbacks positivos

3 Tipos de Aquecimento no Ártico: Aquecimento Global, Aquecimento Acelerado do Ártico, e Aquecimento Descontrolado ou Fugidío.
Eventos: emissões – fuligem, etc – alterações do albedo; perda de neve e gelo – alterações do albedo; corrente de jato alterada – condições extremas, ondas de calor – incêndios – emissões; enfraquecimento das reservas de metano – libertação de metano.

Esta situação perigosa desenvolveu-se porque as emissões humanas causaram o aumento da temperatura da água do Oceano Ártico, e estas águas continuam a aquecer muito mais depressa do que o resto do mundo devido a uma série de feedbacks.

Um destes feedbacks é o recuo do gelo do mar, o que por sua vez faz com que o Oceano Ártico aqueça ainda mais, pois muita da luz solar que era anteriormente refletida de volta para o espaço pelo gelo marítimo, passa a ser absorvida pela água na ausência do mesmo.

Sem gelo do mar, as tempestades também podem desenvolver-se mais facilmente. As tempestades podem misturar águas superficiais quentes em toda a profundidade dos mares rasos, chegando a fissuras nos sedimentos que estão preenchidas com gelo. Este gelo tem até agora agido como uma cola, mantendo o sedimento unido. À medida que o gelo derrete, os sedimentos podem ficar desestabilizados por até mesmo pequenas diferenças de temperatura e pressão que podem ser acionadas por terramotos, deslizamentos de terra submarinos ou mudanças nas correntes oceânicas.

Como resultado, enormes quantidades de metano podem irromper do fundo do mar do Oceano Ártico, e uma vez ocorrendo isto, as temperaturas irão aumentar ainda mais, especialmente sobre o Ártico, agindo assim como mais um ciclo de feedback auto-reforçado que, novamente, torna a situação ainda pior no Ártico, com temperaturas mais elevadas a causar ainda mais libertações de metano, num ciclo vicioso e levando a um aquecimento global de fuga.

Tal aumento de temperatura no Ártico não ficará contido pelas fronteiras do Ártico. Irá desencadear enormes tempestades de fogo em florestas e turfeiras na América do Norte e na Rússia, acrescentando novas emissões, incluindo fuligem que se pode depositar nas montanhas, acelerando o derretimento dos glaciares e ameaçando interromper o fluxo de rios em que as pessoas dependem para sua subsistência.

Estes desenvolvimentos podem ocorrer a uma velocidade tal que a adaptação será fútil. Eventos climáticos mais extremos podem incidir sobre a mesma área numa sucessão de secas, ondas de frio, inundações, ondas de calor e incêndios florestais que se sucedem rapidamente. Dentro de apenas uma década, o impacto combinado de condições meteorológicas extremas, o declínio da qualidade do solo e qualidade do ar, perdas de habitat e escassez de alimentos, água, abrigo e de basicamente todas as coisas elementares necessárias para sustentar a vida, podem ameaçar a maioria, se não toda a vida na Terra, de extinção.

Aumento da temperatura global mensal entre 1.5ºC e 2ºC

Aquecimento global mensal médio incluindo Continentes e Oceanos, calculado utilizando a anomalia de 1880 a setembro de 2016 em relação a 1951-1980, ajustado em 0.58ºC para compensar o aumento desde o pré-industrial até 1951-1980.

Um Aumento da Temperatura Global de Mais de Dez Graus Celsius até 2026?

Quanto aumentaram as temperaturas e quanto aquecimento adicional poderá ocorrer durante a próxima década? A imagem à direita mostra um potencial aumento da temperatura global até 2026 desde níveis pré-industriais. Este aumento contém um número de elementos, como discutido abaixo a partir do topo para baixo.

Fevereiro 2016, aumento desde 1900 (1,62°C)

Previsão de aumento da temperatura de 10 graus em 10 anos, até 2026, devido aos feedbacks climáticos

Possível aumento da temperatura em 10 anos e feedbacks responsaveis por esse aquecimento revelam um possível aumento exponencial de 10 graus até 2026.

O elemento magenta no topo reflete o aumento da temperatura desde 1900. Em fevereiro de 2016, estava 1,62°C mais quente do que comparado com o ano 1900, de modo que é um aumento que já se manifestou.

Aumento desde níveis pré-industriais até 1900 (0,3°C)

Um aquecimento adicional foi causado por humanos antes de 1900.

Correspondentemente, o próximo elemento (azul claro) de cima para baixo usa 0,3°C de aquecimento para refletir o aquecimento antropogénico desde níveis pré-industriais até ao ano de 1900.

Quando se tem em conta este aquecimento, no total estava 1,92°C (3,46°F) mais quente em fevereiro 2016 do que em tempos pré-industriais, como também está ilustrado na imagem abaixo.

Um aquecimento de quase 2ºC em fevereiro 2016

O aquecimento dos outros elementos (descritos abaixo) acresce ao aquecimento que já tinha ocorrido a fevereiro de 2016.

Aumento devido ao dióxido de carbono, de 2016 a 2026 (0,5°C)

O elemento roxo reflete o aquecimento devido à quantidade de dióxido de carbono na atmosfera até 2026. Embora a AIE tenha relatado que as emissões de dióxido de carbono relacionadas com a energia não aumentaram ao longo dos últimos anos, os níveis de dióxido de carbono na atmosfera têm continuado a subir, devido a feedbacks que estão a começar a atuar, tais como incêndios e reservatórios de carbono reduzidos. Além disso, o aquecimento máximo ocorre cerca de uma década após a emissão do dióxido de carbono, de modo que toda a ira de aquecimento das emissões de dióxido de carbono ao longo dos últimos dez anos ainda está por vir. Em conclusão, mais 0,5°C de aquecimento adicional até 2026 parece possível, desde que os níveis de dióxido de carbono na atmosfera e nos oceanos permaneçam elevados e as temperaturas continuem a subir.

Desaparecimento do efeito de máscara dos aerossóis (2,5°C)

Com cortes drásticos nas emissões, haverá também uma queda drástica dos aerossóis que atualmente mascaram todo o aquecimento de gases de efeito estufa. De 1850 a 2010, os aerossóis antropogénicos causaram uma redução de ~2,53 K, diz um artigo recente. Enquanto que por um lado o efeito de máscara dos aerossóis não será removido completamente nos próximos dez anos, há agora muito mais aerossóis do que em 2010. Assim, um aquecimento de 2,5°C devido à remoção de parte do efeito de máscara dos aerossóis parece ser bem possível até o ano 2026.

Mudanças de Albedo no Ártico (1,6°C)

O aquecimento devido à perda de neve e gelo do Ártico pode muito bem exceder os 2W por metro quadrado, ou seja, mais do que o dobro do aquecimento total agora causado por todas as emissões de pessoas do mundo, calculou o Professor Peter Wadhams em 2012. Um aquecimento de 1,6°C devido às mudanças de albedo (ou seja, diminuição do gelo marítimo e da cobertura de neve e gelo em terra), portanto, parece bem possível até o ano de 2026.

Erupções de metano a partir do fundo do mar (1,1°C)

(veja mais imagens na página de metano)
Dr. Natalia Shakhova et al. escreveram num documento apresentado na Assembleia Geral da EGU de 2008 que “consideramos uma libertação de até 50 Gt de quantidade prevista de hidratos armazenados como altamente possível para libertação abrupta a qualquer momento”. Os autores calcularam que tal libertação causaria 1,3°C de aquecimento até 2100.

Este aquecimento de 1,3°C (até 2100) a partir de 50 Gt de metano adicionais parece conservador considerando que neste momento há apenas cerca de 5 Gt de metano na atmosfera, e ao longo dos próximos dez anos estas 5 Gt já serão responsáveis por mais aquecimento do que todo o dióxido de carbono emitido por pessoas desde o início da revolução industrial.

O professor Peter Wadhams é o co-autor de um estudo que calculou que a libertação de metano do fundo do mar do Oceano Ártico poderia render 0,6°C de aquecimento ao planeta em 5 anos (veja o vídeo no post anterior).

Em conclusão, à medida que as temperaturas continuam a subir, um aquecimento de 1,1°C devido a libertações de metano a partir de clatratos no leito do mar dos oceanos do mundo parece bem possível até o ano de 2026, e ainda mais aquecimento parece possível para além desse.

Feedback Adicional do Vapor de Água (2,1°C)

O aumento das temperaturas irá resultar em mais vapor de água na atmosfera (7% mais vapor de água para cada 1°C de aquecimento), ampliando ainda mais o aquecimento, uma vez que o vapor de água é um forte gás de efeito estufa. Mais vapor de água irá resultar do aquecimento devido às mudanças de albedo acima mencionadas no Ártico, e às libertações de metano do fundo do mar, que podem ocorrer nos próximos anos e poderiam resultar num enorme aquecimento para além do aquecimento que já lá existe agora. Como diz o IPCC: “O feedback do vapor de água por si só duplica, aproximadamente, o aquecimento que ocorreria só para o vapor de água fixo. Além disso, o feedback do vapor de água amplifica outros feedbacks nos modelos, como o feedback das nuvens e o feedback do albedo do gelo. Se o feedback das nuvens for fortemente positivo, o feedback do vapor de água pode levar a 3,5 vezes mais aquecimento do que seria o caso se a concentração de vapor de água se mantivesse”, de acordo com o IPCC. Dado um possível aquecimento adicional de 2,7°C devido a apenas dois elementos, ou seja, mudanças de albedo no Ártico e metano do fundo do mar, um aquecimento adicional durante a próxima década de 2,1°C devido ao vapor de água adicional na atmosfera, portanto, parece bem possível até o ano de 2026.

Outros Feedbacks (0,3°C)

Outros feedbacks irão resultar das interações entre os elementos acima referidos. O vapor de água adicional na atmosfera e a energia extra aprisionada na atmosfera irão provocar tempestades e precipitações mais intensas, inundações e relâmpagos. As inundações podem provocar a rápida decomposição da vegetação, resultando em fortes libertações de metano. Além disso, as plumas acima das bigornas (Cumulonimbus Incus) de tempestades severas podem levar vapor de água até à estratosfera, contribuindo para a formação de nuvens cirro que capturam uma grande quantidade de calor que de outra forma seria irradiado para fora, da Terra para o espaço. O número de relâmpagos pode esperar-se aumentar cerca de 12% por cada 1°C de aumento da temperatura média global do ar. Entre os 5 e 13 quilómetros de altura, durante os meses de verão, a ocorrência de relâmpagos aumenta o NO em até 90%, e o ozono em mais de 30%. A combinação de temperaturas mais elevadas e mais relâmpagos também irá provocar mais incêndios, resultando em emissões, tais como de metano e de monóxido de carbono. O ozono atua como um gás de efeito estufa direto, enquanto que o ozono e o monóxido de carbono podem ambos contribuir para aumentar o tempo de vida do metano.

Um aquecimento adicional também pode resultar de feedbacks que estão atualmente a retardar o aquecimento, como o aumento da absorção de carbono pela vegetação, o que um estudo recente atribui a níveis mais elevados de CO₂ na atmosfera. Este reservatório terrestre parece agora tornar-se numa fonte de emissões de carbono, devido à desflorestação e à degradação do solo causadas por práticas agrícolas e condições climáticas mais extremas, como discutido neste post.

Até recentemente, também se pensava que o aquecimento global estava a ser inibido pelo crescimento do gelo do mar ao redor da Antártica e às mudanças de albedo resultantes. No entanto, recentemente, o gelo do mar ao redor da Antártica atingiu um mínimo recorde para esta época do ano (final de 2016). Em 23 de Novembro de 2016, a extensão do gelo marinho da Antártica era 2,615 milhões de km² menor do que a 23 de Novembro de 2015.

Extensão do gelo marinho comparada entre 1980 e 2016Para colocar estes 2,615 milhões de km² em perspetiva, o valor mínimo de gelo do mar do Ártico em 1980 era de 7,544 milhões de km², e o mínimo em 2012 foi de 3,387 milhões de km², como ilustrado pela imagem à direita.

Em conclusão, o impacto conjunto de outros feedbacks poderá bem equivaler a uns 0,3°C de aquecimento adicional até ao ano 2026, ou muito mais do que isso, anulando possíveis sobreestimativas noutros elementos.

Resumo: O potencial de aumento da temperatura global total até 2026 (10°C ou 18°F)

Em resumo, a soma de todo o aquecimento associado aos elementos acima resulta num potencial de subida de temperatura global total (terra e mar) de mais de 10°C, ou 18°F, dentro de uma década, ou seja, até 2026, assumindo que não haverá geoengenharia ao longo da próxima década.

eedbacks climáticos e extinção humana a curto prazo, 10 anos, 2026

Deste modo, isto levaria a números de mortes globais relacionadas com o clima em linha com o prognóstico abaixo.

Mortes pelas mudanças climaticas

A situação é grave e apela a uma ação abrangente e eficaz, conforme descrito no Plano Climático.


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Traduzido do original Extinction de Sam Carana, publicado no blogue Arctic News.

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